Tem um menino na sua rua.
Você não sabe o nome dele. Ele aparece de tarde, com uma bola amassada ou às vezes sem nenhuma, só o pé e a calçada. Dribla o poste. Dribla o cachorro. Dribla o nada.
E aquilo que ele faz com o corpo, com o equilíbrio, com a leitura do espaço, ninguém ensinou. Ninguém precisou ensinar.
Esse menino e o Pelé têm mais em comum do que você imagina.
A mesma escola. Sem escola nenhuma.
Edson Arantes do Nascimento cresceu em Bauru, filho de um jogador de futebol que nunca ganhou dinheiro suficiente pra sustentar o sonho com conforto. Jogava na rua, descalço. Engraxava sapato na estação ferroviária pra ajudar em casa. A bola que usava era pesada, de couro molhado, num gramado duro que não perdoava.
Ronaldo Luis Nazário de Lima cresceu em Bento Ribeiro, subúrbio da Zona Norte do Rio. Queria treinar no Flamengo. Não tinha dinheiro pra quatro conduções por dia. Foi pro São Cristóvão porque o clube pagava a passagem. Antes disso, vendia picolé e entregava jornal.
Ronaldinho Gaúcho cresceu em Vila Nova, periferia de Porto Alegre. Filho de operário que morreu cedo. Aprendeu a jogar no asfalto, no campinho sem grama, chutando com o pé que tivesse disponível.
Três histórias. Três origens humildes. Três escolas que não existem em catálogo nenhum.
A escola da rua. Do improviso. Do espaço que você cria porque não tem outra saída.
O que a academia não consegue vender
O futebol europeu investe bilhões em centros de formação. Campos perfeitos. Nutricionistas. Psicólogos. Análise de dados desde os 10 anos.
E ainda assim, quando precisam de um jogador que faça o que não está no manual, ligam pro Brasil.
Não é por acaso.
A ginga não é ensinada. É vivida.
Ela nasce quando você precisa driblar num espaço apertado porque a calçada não é campo. Quando você inventa uma jogada porque não tem colega pra passar. Quando você aprende a ler o corpo do adversário porque errar na rua dói diferente de errar no gramado.
O futsal, que criou Ronaldo, que moldou Ronaldinho, que passou por toda uma geração de craques, ensina o que nenhum CT ensina: velocidade de raciocínio, toque em espaço reduzido, tomada de decisão sob pressão constante.
Ronaldo marcou 166 gols em uma única temporada de futsal aos 12 anos pelo Social Ramos. Cento e sessenta e seis.
Era o mesmo menino que não tinha dinheiro pra passagem.
O que muda entre ele e o outro
Aqui está a parte que me incomoda. Que não sai da cabeça.
O menino que joga na sua rua às vezes tem exatamente o mesmo talento bruto que Pelé tinha em Bauru, que Ronaldo tinha em Bento Ribeiro.
A diferença não é só o talento.
É quem apareceu.
Waldemar de Brito apareceu pra Pelé. Viu o menino, acreditou, convenceu os pais e o levou ao Santos dizendo: “Esse vai ser o maior jogador do mundo.”
Jairzinho apareceu pra Ronaldo. Viu o garoto no São Cristóvão e pagou dez mil dólares pelo passe quando dois grandes clubes do Rio tinham recusado.
Alguém apareceu. E foi isso que separou o craque do menino da calçada.
O talento estava nos dois. O acaso chegou só pra um.
O que o Brasil perde toda semana
Pensa nisso.
Em quantas ruas do Brasil hoje tem um menino com o corpo do Ronaldo aos 12 anos, com a visão de jogo do Ronaldinho aos 13, com a personalidade de Pelé aos 15.
E ninguém vai aparecer pra ele.
Não porque ele não tenha talento. Porque o sistema que deveria descobri-lo funciona de forma precária, desigual, dependente de acaso e de quem conhece quem.
O Brasil não tem falta de talento. O Brasil tem falta de rede.
Rede de base que cubra os bairros esquecidos. Olheiros que cheguem onde os grandes clubes não chegam. Estrutura que dê ao menino pobre o que Waldemar de Brito deu ao Pelé: alguém que acredite antes que ele mesmo acredite.
O que não muda
Tem uma coisa que não muda. Que atravessa gerações, bairros, décadas.
O menino brasileiro nasce jogando.
Não aprende. Não treina antes de jogar. Ele joga e aprende enquanto faz.
É assim desde Pelé. É assim até hoje.
A ginga que o mundo admira não nasceu em academia. Nasceu na rua Rubens Arruda em Bauru. Nasceu na calçada de Bento Ribeiro no Rio. Nasceu no campinho de Vila Nova em Porto Alegre.
E nasce todo dia.
O que começa em casa
A gente fala muito em olheiro, em estrutura, em política pública. E tudo isso importa.
Mas tem algo que não depende de governo nem de clube.
Depende de você.
O pai que leva o filho no campinho no sábado de manhã. A mãe que não tira o menino do treino quando a vida aperta. O tio que aparece no jogo, que bate palma, que diz que acredita.
Pelé teve o pai que jogava bola e ensinava o amor pelo esporte mesmo sem dinheiro.
Ronaldo teve a mãe que insistiu na escola particular mesmo apertada, porque queria que o filho tivesse mais do que ela teve. Ronaldinho teve a família que levou o luto e manteve a criança jogando.
O esporte faz muito por uma criança muito antes de qualquer título. Ensina disciplina, respeito, lidar com derrota, trabalhar em equipe, acreditar em si mesmo quando ninguém mais acredita.
Não estou falando de criar o próximo Pelé.
Estou falando de criar uma criança mais inteira.
E às vezes o que falta não é estrutura, não é olheiro, não é clube. É alguém de casa que olhe nos olhos dessa criança e diga: eu vi. Eu acredito. Vamos juntos.
Então a pergunta que fica não é do governo. Não é da CBF. Não é do clube.
É sua.
O que você está fazendo pelo seu filho? Pelo seu sobrinho? Pela criança que você vê todo dia na sua rua e sabe que tem algo diferente?
Waldemar de Brito não era ninguém famoso quando apareceu pra Pelé.
Era apenas um adulto que acreditou.
Você pode ser esse adulto.
Por Karine Mendes | Coluna Aos 45 | Notisul

